blog em memória da gazetilha que "circulou na cidade de Cachoeira do Arari (ilha de Marajó, Estado do Pará) no biênio 1906 / 1907. Fôlha pequena, a 3 colunas. Redigido por Alfredo N. Pereira." (cf. Carlos Rocque, "Grande Enciclopédia da Amazônia"). O editor era meu avô paterno, usava tipográfica manual no Chalé celebrizado nos romances de Dalcídio Jurandir, notadamente "Chove nos campos de Cachoeira" e "Três casas e um rio".

quinta-feira, 29 de abril de 2010

"nós somos de Ponta de Pedras, na ilha do Marajó"...

Parte notável da história da capitania hereditária da Ilha Grande de Joanes ou Marajó (1665-1757), o município de Ponta de Pedras (mais de 20 mil almas em 3.380 km² ) completa 132 anos de emancipação política neste 30 de abril. Criado por decreto provincial de 18 de abril de 1877 sua inauguração solene deu-se no dia 30 de abril de 1878 com instalação da Camara Municipal e posse de cargo de Vogais (vereadores), teve como primeiro presidente Antônio Pereira de Moraes, proprietário rural. Provável descendente do sargento-mor (major) Domingos Pereira de Moraes, "contemplado" (donatário) da fazenda São Francisco, espólio da Companhia de Jesus (1759) no rio Marajó-Açu quando da expulsão dos jesuítas do reino de Portugal e colônias sob o diretório do Marquês de Pombal.

A nova vila de Ponta de Pedras, sita à margem esquerda do rio Marajó-Açu, achava-se anteriormente em território de jurisdição da vila da Cachoeira, antiga freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira do rio Arari, fundada em 1744 por Florentino da Silveira Frade, dono da fazenda Ananatuba, inspetor e comandante geral da Ilha do Marajó celebrizado como guia do naturalista Alexandre Rodrigues Ferreira, da Universidade de Coimbra, conforme a "Notícia Histórica da Ilha Grande de Joanes, ou Marajó" (Lisboa, 1783), a qual, como se sabe, foi primeiro capítulo da famosa "Viagem Filosófica" (1783-1792).

O leitor curioso da história da Amazônia paraense carece de prévia informação geográfica básica sobre a evolução do territorio. Para tanto, o estudo da formação e desenvolvimento dos municípios do Pará é questão incontornável a fim de não ficar num beco sem saída, cercado de datas e nomes tirados do nada para chegar a lugar nenhum... O caso de Ponta de Pedras tem contexto que remete a Cachoeira do Arari, que por sua vez foi dependência de Monsarás (antiga vila capital da microrregião Arari e hoje um distrito do município de Salvaterra, que até 1960 foi parte de Soure), nas sesmarias dos barões da Ilha Grande de Joanes (1665-1757).

Donde saiu o nome da extinta baronia da ilha grande? Por certo da velha "aldeia dos Joanes" com sítio arqueológico à espera da verba que ainda há de honrar o verbo oficial empenhado em projeto de revitalização para o turismo cultural... Mas, atenção! A míngua de interesse acadêmico dá panos pra mangas... Tem 'expert' diplomado e mestrado que confunde aldeia dos "joanes" (Iona ou Yona, ou Sacaca) "elevada" em Vila de Monforte, com a ilha toda [Marinatambalo de Pinzón (1500), dos Nheengaíbas ou dos Aruans (séc. XVII), Marajó depois da adesão à Independência; aliás "Analau Yohynkaku" na extinta língua dos aruãs, segundo Ferreira Penna].

Tem mais confusão: a vila de Monforte (1758) desapareceu na voragem toponímica, com que o poder a golpes de decretos apaga a memória da gente rude mais depressa do que o diabo pisca um olho e malandro tira, de ouvido, música brega... Ela deu lugar, primeiramente, a Soure e depois ao município de Salvaterra, aldeia dos sacacas erigida em vila antes de ser a atual cidade. Por fim, a moderna Joanes e Joanes Velha, a dita aldeia que um dia foi Monforte transplantada ao Grão Pará por fina importação de Portugal. E por aí vai...

Então, salta aos olhos do leitor a inevitável influência da "Cidade do Pará" na construção da paisagem cultural Belém-Marajó pela ocupação dos rios Arari (1680, com o fazendeiro Francisco Rodrigues Pereira e 1696 com os frades das Mercês) e Marajó-Açu (1686, com os padres jesuítas) e, muito mais intensamente, após o chamado Diretório dos Índios (1757), através da navegação de igarités (canoas à vela) entre a Cidade e a Costa-Fronteira (litoral sudeste da ilha do Marajó). Aí, canaviais nas várzeas abertos a ferro e fogo por negros escravos e currais de gado em campos alagados, contando principalmente com índios catecúmenos, além de pescadores, gapuiadores e mais populações extrativistas; garantiram o sustento econômico de engenhos e fazendas em íntima interdependência com a Cidade grande (da qual o Ver O Peso é umbigo e matriz) e desta última com a Civilização européia, notadamente no período áureo (para os donos) da Borracha.

É dizer, sem mais nem menos, Cachoeira é ponta de lança belenense no Arari e Ponta de Pedras posto avançado no Marajó-Açu: reciprocamente, a ilha invicta -- resistiu à ocupação colonial, de 1616 até 1680, nunca se rendeu às tentativas armadas dos colonos com seus tupinambás aliados e somente foi pacificada pela catequese jesuítica a partir do acordo de paz dos caciques nheengaíbas, em Mapuá (Breves), a 27 de agosto de 1659 -- exerce a velha dialética da geografia humana que sempre existiu nas duas margens do "mare nostrum" de água doce chamado grande Pará, através dos supracitados rios com seus municípios saídos, imemorialmente, da lenda da "Primeira Noite do Mundo". Cujo mito seminal da amazonidade jazia oculto no fundo do rio dentro de um caroço de tucumã (Astrocarium vulgare), idealização sublime do fruto dourado da palmeira de espinhos que dá ao caboco a divina canhapira cachoeirense e a mina de lendas marajoaras encantadas.

Por outras palavras, a história política e social dos nossos municipios amazônicos é filha do casamento da geografia pré-colombiana com a conquista e invenção do "rio das amazonas": o tempo arqueológico não morre, ele se transforma em cultura contemporânea. A integração física entre estes dois rios históricos da ocupação colonial da Ilha acelerou-se cerca do ano de 1870, durante o governo da Província do Pará pelo Barão de Marajó, José Coelho da Gama e Abreu (1832-1906), com a escavação de canal a braço de escravos e o desastre de Terras-Caídas que enterrou no fundo a memória morta daquela gente, hoje o chamado "Rio Canal" (curso de cabeceiras do rio Curral Panema ou Carapanaóca, antigo Igarapé Puca ou Rio da Fábrica em Ponta de Pedras), que interliga as duas bacias e se comunica ainda (como dantes) à costa norte através do rio Anajás-Mirim/Anajás Grande levando à travessia da baía da Vieira Grande para Macapá; e à Contracosta através do lago Arari e canal das Tartarugas.

Aqui uma parada no discurso das águas para lembrar o engenheiro português Joaquim Gomes de Oliveira, elogiadíssimo pelo progressista Barão de Marajó [cf. "As regiões amazonicas"], que desejava esgotar os mondongos (pantanais) da ilha do Marajó para dar cabo, mais depressa, a cobras e jacarés e dar pasto à civilização pela pata dos bois e cavalos. Plano hidrológico, certamente, que correria para completo desastre ecológico antes mesmo da mudança climática que hoje anda a fazer as suas vítimas em diversas paragens do planeta.

Não são claras as origens do mal estudado município de Ponta de Pedras, que completa agora 132 anos da sua emancipação no contexto histórico da invenção da Amazônia. Sabe-se, entretanto, que antigamente foi freguesia, cerca de 1637, sob orago de Nossa Senhora da Conceição, dita de Ponta de Pedras. Data daí a questão da mudança de sede que existia desde a aldeia das Mangabeiras, na praia à margem da baía, dos padres da Companhia de Jesus. Supostamente provém de terras da primeira sesmaria concedida à missão para fundação da fazenda São Francisco [fazenda Malato localizada na foz do rio Araraiana] bacia do rio Marajó-Açu. Da praia a freguesia foi levada para dentro do rio, devido à falta de porto seguro para canoas de pesca na beira da baia. No mesmo rio os jesuítas tiveram mais duas fazendas, São Brás (rio Fortaleza na atualidade) e Rosário no trecho superior chamado Marajó-Ité...

Segundo comunicação pessoal que me fez um dia o finado Brasilino Rodrigues, velho morador de Mangabeira descendente de família remanescente do lugar; existiram duas aldeias vizinhas na beira da praia. A outra era chamada localmente de "Vilarinho" e que por dificuldade de porto abrigado a população foi miguando e mudando suas casa para Mangabeira. Desse modo, seu pai, Bibiano Rodrigues; fez casa nova coberta de telhas no terreno onde Brasilino e sua mulher Jovina como herdeiros criaram filhos e netos em boa vizinhança com uma parentela extensa. Sobre a mudança da antiga freguesia para "o Itaguari" [vila de Ponta de Pedras] a historia oral local mangabeuara registrava sempre como tendo causa na falta de porto para canoas de pesca.

O "Vilarinho", veremos adiante, foi aldeia indígena em sua origem com fonte bibliográfica no séc. XVII, e depois que o Igarapé do Vilar desapareceu vencido pelo assoreamento e o mato veio a ser colônia agricola, com nome de localidade de Pau Grande (referência à altíssima e centenária samuumeira (Ceiba pentandra), que era monumento natural e guia de pesca artesanal para canoas ao largo durante travessia da perigosa baía do Marajó. O prefeito Wolfango "Fango" Fontes da Silva fez assentamento de lavradores vindos no Nordeste fugindo das secas naquela faixa pedregosa, que nunca dantes dera mais do que algumas rocinhas de mandioca, e por muito trabalho viu florescer agricultura familiar mais do que interessante. Pequenos burgueses da vila, chateados pelas safras dos "arigós" e sucesso do caboquinho Fango apelidavam a este de "prefeito de tamancos"...

Com a saída de Fango a colônia agrícola da Mangabeira (faixa costeira de Praia Grande, Mangabeira, Pau Grande até Jaguarajó) definhou e entrou em marasmo. Entretanto, passadas três décadas novo surto de progresso social seria conhecido ali (para o bem e o mal). Desta vez, a então prelazia católica de Ponta de Pedras entrou a fazer uma inovadora experiência kibzutiana (sem dizer o nome) sobre restos deixados pelos colonos do Fango. Chamou-se "cooperativa da Nella" (do nome da colaboradora do bispo Angelo Rivatto, Nella Ramella italiana naturalizada brasileira). Agora Pau Grande, antigo "Vilarinho", passava a se chamar sem mais nem menos agrovila "Antonio Vieira" como sempre atrelada a Mangabeira em sua velha função de sede distrital das praias, entre a boca do Rio da Fábrica (foz do Arari) e foz do Marajó-Açu.

Infelizmente para os cabocos pontapedrenses, a "cooperativa" (agrovilas de Vila Nova, Armazém, Praia Grande, Cajueiro, Mangabeira, Antonio Vieira, Cachoeirinha, Jaguarajó, Tartarugueiro, Santana, Porto Santo e mais outra comunidade que não lembro) havia um problema de origem: a falta de um efetivo planejamento socio-econômico e ambiental com participação da comunidade. No primeiro mandato do prefeito Antonio Malato (1966-1969), estando eu no papel de secretário municipal de finanças, fiz um considerável esforço para inventar o planejamento participativo, inclusive elogiado pelo governador Alacid Nunes.

Nella e Rivatto apoiados por doadores estrangeiros e confiados no entusiasmo dos "cooperados" tinham muita dificuldade para dialogar com o velho cartorário do município e seu jovem secretário "comunista"... Reza a lenda que se desperdiçaram milhões de dólares entrados no país não se sabe como. Enfim, depois da euforia veio o cansaço e a depressão dos agricultores. Os políticos sempre de olhos nas eleições não faltaram para assediar as famílias e pesquisadores acadêmcos rondaram aquela coisa extravagante para saber até onde ia chegar. Do Vilarinho a gente de Antônio Vieira nunca falou, de Pau Grande cedo esqueceram como tudo mais (o POEMA, em Praia Grande, EMBRAPA em Jaguarajó, por exemplo, sem contar com um tal PED-Guaianá, projeto de execução descentralizada do PPG7).

Um amigo disse-me certa vez: "eu tenho pena de Ponta de Pedras"... Por que? Eu indaguei. Ele me respondeu, "porque já foi tantas vezes ajudada e continua mais pobre". Pensei profundamente sobre o assunto e acho que a gente "era feliz", mas não sabia... Talvez nem quisesse aquela ajuda milionária, mas sim recuperar direitos ancestrais perdidos. Vivemos um drama de Sísifo, que não é só de Ponta de Pedras porém de toda a Amazônia com seus 25 milhões de habitantes... E o pior são os novos colonizadores que pensam estar chegando para descobrir o El-Dorado!

A crônica dos jesuítas corrobora a memória do filho do "tapuio" Bibiano Rodrigues quanto à existência de duas aldeias vizinhas na costa da baía do Marajó: uma pronta para engolir a outra... A "aldeia das Mangabeiras" foi fundada pelos padres com índios mansos (mas canibais de origem e destino cabano) trazidos do outro lado, da aldeia Samuúma (Barcarena, que teve outras mais como Gebiré e Murtigura, atual Vila do Conde). As pedras do terreno foram motivo de dificuldade para cultivar a terra e desânimo de índios e padres... Os quais cuidaram de requerer ao donatário da capitania de Joanes novas sesmarias. Diz que à coisa de meia légua se encontrava a aldeia dos "Guaianazes", que os padres colocaram sob proteção de São Francisco Xavier, homenagem ao companheiro de Inácio de Loyola.

Ora, o padre Antônio Vieira, na carta-relatório feita em Belém de 29 de novembro de 1659, na qual prestou contas da missão do Grão Pará à regente Dona Luísa de Gusmão, viúva de Dom João IV; e descreve em grandes letras a pacificação dos Nheengaíbas (27/08/1659) coloca no rol das "nações" indígenas e dos sete caciques da confederação os bravios "Guaianases" que no rio e aldeia dos "Mapuaises" fizeram pazes com os portugueses e os "índios cristãos" (Tupinambás).

Na "Notícia Histórica" (1783) Alexandre Rodrigues Ferreira ao tratar da reforma territorial determinada pela expulsão dos jesuítas, descreve detalhadamente a "elevação" das aldeias em Vilas e Lugares da ilha do Marajó. Na parte correspondente ao município de Ponta de Pedras atual ele se refere à "aldeia dos Guaianazes" convertida em Lugar de Vilar; a meia légua (cerca de três quilômetros) de distância do Lugar de Ponta de Pedras elevado da antiga aldeia das Mangabeiras.

Não há dúvida, trata-se das duas comunidades próximas uma da outra propositalmente: os catequisados da margem direita do Rio Pará (nome genérico "Caripunas") e os gentios "Guaianases" do payaçu a ser assimilados, como de fato, ajudados ademais pelo assoreamento da boca do Igarapé do Vilar que determinou mais depressa a assimilação, conforme relato de velhos moradores de Mangabeira. Eram, então, "nheengaíbas" ou melhor "Guaianases' [deve-se grafar Guaianá ou Wayana, modernamente] os mais antigos habitantes de Ponta de Pedras, noves fora outras mais etnias Marajó-Açu acima, passagem ancestral dos belicosos Aruãs em sua incursões guerreiras para o rio Guamá ("rio de Guaiamã, tuxaua dos Aruãs e Mexianas; segundo Armando Levy Cardoso em "Toponímia Brasílica"), historicamente comprovado na guerra contra a invasão da "Tapuya tetama" (terra dos Tapuias, depois Grão Pará) pelos Tupinambás.

Para encurtar conversa: da tomada de São Luís do Maranhão (1615) e fundação de Belém do Pará (Feliz Lusitânia,1616) a marcha colonizadora lusa debaixo da União Ibérica (1580-1640) contra a invasão estrangeira, iniciada em Pernambuco (Nova Lusitânia) reunindo portugueses, índios tupinambás e seus mamelucos façanhudos foi além do Cabo Norte (Amapá) findar pelas raias do Oiapoque... Muito antes porém, houve a volumosa onda tapuia de mais de mil anos, Aruâs à proa até terminar na história do café de Caiena "emprestado", em 1723, pelo sargento-mor da Vigia, Francisco de Mello Palheta; e devolvido em farto contrabando pelas alturas dos anos de 1960...

Estamos falando, pois, da histórica dialética Norte-Sul debaixo do equador nas baixas terras do novo trópico úmido ao som de carimbó: "nós somos de Ponta de Pedras, na ilha do Marajó"...

Um comentário:

LABORATORIO DE DEMOCRACIA URBANA “Cidade Velha-Cidade Viva” disse...

Esse teu matrial devia ser obrigatorio a leitura/estudo, ao menos em Pota de Pedras.
Eu adorei.
Voiu até pegar uma frase pra falar da atual tentativa de 'colonização' da Cidade Velha.